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domingo, 30 de dezembro de 2007

Últimas - parte II.

22.12.2007
Com 6 dias de hospital começamos a nos habituar à rotina.
Dia 18 foste para o bloco... Toleraste bem o jejum que começaste às 00h. Pouco passava das 9h quando te levei, ao colo, para o bloco operatório, custou-me mais entregar-te do que o tempo de espera da cirurgia. Só por volta das 12,45h me chamaram para o recobro.
Estavas bem, a cirurgia tinha corrido muito bem! E segundo a médica que te operou, das malformações que existem do tipo da tua, esta é das mais simples!
Durante as horas em que estivemos à espera, fui invadida por um vazio, um vácuo... Não consegui pensar me nada, não senti nada, parece que as emoções ficaram suspensas, num plano inatingível, superior ao que nos encontramos. Tivemos a visita dos nossos grandes amigos, que estão sempre lá, onde e quando é preciso. Ajudou, em muito, o tempo a passar!
Quando entrei no recobro, estavas a acordar, assustada e a chorar, não de dor porque estavas sedada, mas de medo do que te rodeava, máquinas, tubos, sonda, mãos ligadas... e fome!
Dei-te muitos miminhos, molhei-te a chucha em água com sacarose, para te confortar. Em breve tínhamos alta do recobro e estaríamos na enfermaria para poderes descansar. (Não foi necessário ir aos cuidados intensivos passar o resto do dia).
Dormiste toda a tarde e noite, somente acordavas quando estavas incomodada com o barulho que uma mãe insistia em fazer.
É assim, filha, há pessoas que não conseguem ter respeito pelos próprios filhos, quanto mais pelos filhos dos outros... Adiante.
Nos últimos dias sentes-te incomodada com os pontos. cada vez que temos que tocar neles ficas com dor ou receio que a dor volte. Mas já está a melhorar e toleras muito mais essas mexidas, que são mesmo inevitáveis.
Voltaram as cólicas, ontem à noite queixaste-te muito de dores de barriga. A mamã fartou-se de avisar que só te davas com o teu leite, mas a cozinha de leites não aceitou a lata que trouxemos porque estava aberta (abriram-na aqui na enfermaria... logo no 1º dia) e tens bebido o leite do hospital. É mais saboroso, mas faz-te tão mal! Hoje o papá vai tentar resolver a situação trazendo 2 latas do teu leitinho. (quando escrevi isto nem imaginava o que ainda estava para vir...)

Últimas!

17.02.2007
Demos entrada no serviço de cirurgia ontem, mas só hoje começaram as manobras de preparação para a cirurgia.
És uma menina exemplar, deixas que te tirem sangue, que te puncionem as veias para o soro e medicação. Choras um pouco, mas minutos depois já presenteias toda a gente com os teus sorrisos e boa disposição.
És a mais novinha do serviço. À excepção da menina que partilha a enfermaria contigo, todos os outros já andam.
Amanhã é O dia. O dia pelo qual tanto tenho esperado e angustiado. Vais ficar entregue a uns senhores todos vestidos de verde, a mamã contou-te que são os gnomos mágicos do Natal. Vivem na floresta encantada onde se avistam mil e uma estrelas cadentes. Eles vão cuidar bem de ti.
Tens te portado muito bem, filha. Comes, brincas com a mamã e o papá, reconheces os teus brinquedos que te acompanham no berço, dormes o quanto te deixam dormir. Há sempre outras crianças a passear no corredor, os passos das enfermeiras, os choros (aqui ao lado fica a unidade de queimados...)
Há um ar de angustia em cada pai e mãe que aqui estão. Não se podia esperar outra coisa. São crianças acidentadas, queimadas, com cancro e até as há que já têm alta médica mas por segurança das mesmas, as assistentes sociais não autorizam a sua saída... Todas elas já passaram ou vão passar pelo bloco operatório.
Custa-nos muito cá estar. Prometi-te que não vacilava à tua frente. Desculpa filha, por ter quebrado essa promessa. Hoje de manhã acordei particularmente sensível e não consegui conter as lágrimas. Mas todo o pessoal que aqui trabalha tem ajudado a superar esta angustia. Basta vê-los a cuidar de ti com tanto carinho e dedicação. Agora dormes tranquila no berço ao meu lado. A partir da meia-noite começas a dieta zero.
E amanhã será outro dia!